segunda-feira, 14 de março de 2016

Hoje (14/03) relembramos o eterno Poeta Carnaubense Francisco Rafael Dantas (França)


Hoje dia 14 de março é o dia da Poesia. Vale a pena ler essa poesia do grande Poeta e Maestro Carnaubense Francisco Rafael Dantas o nosso eterno França, tirado do livro "Retalho dos Meus Poemas".
Seu vigaro eu vim aqui
Pidi a sua benção
Pá le fazer um pedido
De dentro do coração.
Foi aqui nessa igrejinha
Qui me casei com Zefinha
Alí no pé do artá
Faz doís anos e cinco mêz
Qui aquilo qui o sinhô fez
Vim pidi pra dismanchá.

Eu sei que as coisas de Deus
É um negócio sagrado
Inté hoje eu tô cumprindo
Aquele palavriado
Qui o sinhô disse pa nós
Responder em arta voz
No dia do casamento
Mas minha muié Zefinha
Esqueceu o juramento.

Logo no primeiro mês
Zefinha era carinhosa
Me cheirava em todo canto
Mitida a meia dengosa
Eu chegava do roçado
Mermo sujo, inlamiad
Ela vinha me abraçar
Me levava pela mão
Pa fazer obrigação
Ante dagente jantar.

Nós só andava abraçando
Pa todo canto qui ia
Pa missa, pa procissão
Po forró, pa canturia
As vez eu ficava inté
Cum vergonha da muié
Cum aquele movimento
As vez eu lhe catucava
Pra ver se ela acabava
Cum aquele inxirimento.

A nossa vida era assim
Cum amor pa todo lado
Paricia chamechuga
Nós só drumia abraçado.
Nós morava nun ranchim
Lá na beira do camim
Do sítio Ponta da Serra
Eu alegre iguá tetéu
Adorava Deus no céu
E Zefinha aqui na terra.

Dum certo tempo prá cá
Zefinha ficou mudada
Só passiava sozinha
Inté mermo prefumada
Eu pensei de ureia impé
Qui diabo Zefinha qué
Qui só se ocupa em andá
Será qui ela esqueceu
Do qui agente premeteu
Ao padre no artá?

Inté mermo na drumida
Zefinha ficou mudada
Dava as costas para mim
No lenço toda inrolada
Um dia me destinei
No seu vazio catuquei
Pra vê se ela se virava
Ela deu um coice em mim
Qui pegou bem no cantim
Qui ela antes alisava.

Aí foi qui eu discubrí
A mudança de Zefinha
Ela tava cum xodó
Cum um tá de Zé Golinha,
Nêgo do biço virado
Só vivia embriagado
Mitido a galo de raça
Paricia inté um sapo
Ganhô Zefinha no papo
Pa fazer nossa disgraça

Ela fugiu com o nêgo
Um dia de manhanzinha
Ainda curri atrás
Gritando: Vorta Zefinha.
Ela nem pa trás oiava
Talvez zombando de mim
Aí eu fiquei pensando
Deus vá le acompanhando
Pedaço de muié rim.

Já faz quatro ou cinco mês
Qui Zefinha foi imbora
E o homem viver sozin
É a maior caipora
Quando chego do roçado
Encontro feijão queimado
Sem ter pa quem apelá
Purisso é queu vim aquI
A seu vigaro pidi
Po sinhô me ajudá.

Tem uma muié me ioando
Já cum os oio mei pidão
Purisso eu peço a seu pade
Dirmanche aquela oração
Qui o sinhô na capelinha
Rezô pa eu e Zefinha
Quando nós fumo casá
Eu sei qui Deus tá me ouvindo
Mas seu vigaro pedindo
Ele pode perdoá.

Pois esse é o único jeito
De acabá meu sufrimento
E deu num quebrá a jura
Do sagrado casamento
Pois eu preciso arranjá
Uma muié pá morá
Mais ela no meu ranchim
Se o casório num for nulo
Eu virá burro mulo
E viver no mundo sozim.
Fonte: Cassinha Medeiros

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